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Revista Veja: o sistema antidopagem brasileiro tem enfim um laboratório de padrão internacional

Veja abaixo a matéria de Cecília Ritto publicada neste sábado (28.11), na Revista Veja, que fala sobre o Laboratório Brasileiro de Controle de Dopagem - LBCD e o caso da Rússia.

Operação limpeza

Com poucos ajustes ainda para fazer, o sistema antidoping brasileiro tem, enfim, um laboratório de padrão internacional preparado para o desafio de 2016O Rio de Janeiro segue firme na corrida para a Olimpíada de 2016, mas o percurso tem obstáculos razoavelmente altos. O mais recente veio da Agência Mundial Antidoping (Wada, na sigla em inglês), que pôs o Brasil numa lista de seis países em "estado de alerta" por atrasos no cumprimento de algumas normas. O puxão de orelha faz parte do esforço renovado da agência para organizar o sistema antidopagem, abalado por um devastador relatório da própria Wada que incriminou dirigentes, técnicos e órgãos do governo da Rússia na prática de contrafação sistemática dos astros do atletismo. Apesar dos tropeços apontados, o Brasil apresenta nesse quesito uma significativa e indispensável melhora de desempenho: tem um laboratório novo em folha preparado para detectar de modo confiável a presença, no sangue e na urina dos esportistas, de substâncias que turbinam artificialmente seus resultados. Ligado ao departamento de química da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o prédio no campus da Ilha do Fundão já está credenciado para análises rotineiras e em processo de habilitação para atuar na Olimpíada.

Os entraves, de cunho burocrático, precisam ser solucionados até março de 2016, segundo a Wada. Um deles é o prazo de tramitação de processos na Justiça Esportiva, que a agência quer ampliar por considerar o atual limite de sessenta dias insuficiente para atender aos padrões internacionais. A Wada pede mais tempo para recorrer de decisões locais. A solução passa por uma mudança na legislação, que o governo se prepara para encaminhar ao Congresso. O outro entrave é a efetivação da recém-criada Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem (ABCD) como entidade capacitada a lidar com o assunto. Isso levará a uma unificação de todo o processo, atualmente pulverizado pelas diversas confederações. O clima geral, porém, é de justificado alívio. O Brasil estava sem laboratório antidoping desde 2013, quando o único existente, espremido em uma saleta na mesma UFRJ, não tinha sequer condições de coletar sangue e teve o desfecho esperado: depois de falhar em uma bateria de testes, foi descredenciado.

Bancado pelo governo federal, o novo prédio custou 134 milhões de reais (além dos 54 milhões em equipamentos) - quase cinco vezes mais que o planejado. O resultado é um espaço de 5500 metros quadrados de alta tecnologia, onde trabalham cerca de sessenta técnicos, o dobro do efetivo no antes acanhado laboratório. O número será ainda reforçado durante a Olimpíada com profissionais vindos de outros países. "Não dá nem para comparar a realidade do primeiro laboratório com a de agora", resume o vice-diretor, Henrique Pereira. De seis espectrômetros (aparelhos que apontam substâncias presentes em uma amostra), o lugar passou a contar com trinta, todos de última linha. Outra máquina é capaz de rastrear aditivos que elevam a resistência no organismo de ciclistas e maratonistas. E a primeira do gênero no Brasil. Com tal equipamento é possível examinar 100 amostras por dia, em grande parte automaticamente, progresso notável em comparação às trinta análises manuais do passado. Nos Jogos Olímpicos de 2016, em ritmo de mutirão, serão avaliadas 5 000 em duas semanas.

A gota d'água para o descredenciamento da instalação anterior foi o erro, em 2011, na análise da urina do jogador de vôlei de praia Pedro Solberg. O antidoping daqui apontou a existência de substâncias proibidas, Solberg bateu o pé dizendo que estava incorreto, bancou do próprio bolso um novo teste na Alemanha e o resultado deu negativo. O laboratório brasileiro entrou então no radar da Wada, falhou nas fiscalizações que se seguiram e acabou sendo fechado. Nos anos em que o Brasil ficou sem estrutura própria, o sistema antidopagem local desmoronou de vez. Em outro caso exemplar, de 2013, o goleiro Glaycon Oliveira, então do América de Minas Gerais, foi um dos indicados depois de um jogo para recolher material para exame antidoping e as amostras tiveram de ser despachadas para um laboratório em Los Angeles. O pacote levou inacreditáveis oitenta dias para chegar. A análise detectou duas substâncias proibidas e o atleta foi suspenso por um ano. Suspeitando de degradação do material depois de viagem tão longa, a Wada decidiu solicitar uma avaliação da amostra reserva. Surpresa: deu negativo.

Com a falta de infraestrutura, certos esportes simplesmente abandonaram a monitoração nos intervalos entre as competições internacionais, quando a amostragem é exigida pela Wada. Os atletas da liga nacional de basquete não são testados no país há três temporadas. O judô monitorou seus competidores de ponta apenas três vezes no ano passado - 10% da frequência nos Estados Unidos. Além da burocracia, o alto custo de fazer testes em outro país inibia a prática: uma análise não sai por menos de 130 dólares no exterior, sem contar a despesa com o transporte. O Comitê Olímpico Internacional (COI) chegou até a cogitar contratar um laboratório de fora para fazer as análises durante os Jogos do Rio, tamanho era o atraso. No fim, o prédio ficou pronto a tempo para a Olimpíada de 2016.

Para compensar a letargia inicial, o secretário nacional da ABCD, Marco Aurelio Klein, foi a Montreal, sede da Wada, pedir pressa no processo de credenciamento. Pedido atendido, o selo foi obtido em dois anos, em vez dos três habituais. Após cinco lotes de análises e duas visitas técnicas, em maio passado o laboratório do Rio recebeu a ambicionada certificação. Também está habilitado a monitorar o chamado "passaporte biológico" de quarenta atletas brasileiros de ponta, cujo sangue vem sendo coletado com regularidade para compor o perfil das substâncias existentes em seu organismo e facilitar a detecção de alterações. O certificado para grandes eventos deve sair definitivamente três meses antes dos Jogos.

A renovada pressão antidoping da Wada, órgão independente, pode ter o efeito de tirar da Olimpíada do Rio o atletismo da Rússia, a segunda maior potência esportiva do planeta. Uma punição ampla atingiria, entre outros, a estrela do salto com vara e três vezes medalhista olímpica Yelena Isinbayeva, que não é citada em nenhum momento no relatório da Wada. Indignada, ela disse pensar até em competir sem país, sob a "bandeira olímpica".

Muito distante da fábrica de campeões artificiais que o doping criou na Rússia, o Brasil também tem currículo com manchas nos testes obrigatórios realizados em competições internacionais. Entre 2008 e 2011, foram registrados trinta casos de doping na natação brasileira - o segundo maior número do mundo, superado apenas pelos 33 da China - e outros vinte no ciclismo. Só em 2009, 33 atletas brasileiros foram flagrados com substâncias proibidas, quinze deles no atletismo. "O doping é um jogo de gato e rato. O rato está sempre na frente, mas muitas vezes os gatos conseguem pegá-lo. Esse é o nosso papel", diz Pereira. Até agora, em seus seis meses de funcionamento, o novo laboratório (que, muito brasileiramente, abriu com uma tabela de preços estratosférica) analisou 2500 amostras. Nada que se compare aos EUA, onde se testam entre 10 000 e 12 000 por ano. Mas já é um bom começo.

 

Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem – ABCD
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